Campos do Jordão: A “Suíça Brasileira” que Tem Raízes Portuguesas, Nordestinas e Europeias
Campos do Jordão: Mais que uma fachada europeia, uma rica miscigenação que moldou a “Suíça Brasileira”
Com sua arquitetura inspirada em países europeus, paisagens de tirar o fôlego e um clima ameno, Campos do Jordão ostenta com orgulho o título de “Suíça Brasileira”. No entanto, por trás dessa imagem encantadora, reside uma história profundamente enraizada na brasilidade, forjada pela contribuição de imigrantes portugueses, a força de trabalho nordestina e a influência de outras culturas europeias.
A cidade, que se prepara para receber milhões de turistas, especialmente durante a temporada de inverno, é um caldeirão de histórias e influências. Sua fundação remonta a 1874, com a aquisição de terras por um português para uma fazenda de gado. Contudo, foi a partir da década de 1920 que a ocupação ganhou um novo rumo, inicialmente ligado à saúde e, posteriormente, consolidando-se como um dos principais destinos turísticos do país.
Conforme informações divulgadas, Campos do Jordão estima receber 6 milhões de visitantes neste ano, com cerca de 2,2 milhões apenas na temporada de inverno. A cidade, que se tornou um polo turístico, é um testemunho da diversidade cultural e da capacidade de adaptação e desenvolvimento do Brasil. Vamos desvendar as camadas dessa rica história.
Os Pilares da Colonização: Portugueses e a Origem de Campos do Jordão
A história de Campos do Jordão começa a ser escrita com a chegada dos portugueses. Os primeiros registros de povoamento estão ligados à ordem da Corte portuguesa, que abriu caminhos para o transporte de ouro das minas de Itajubá, em Minas Gerais, até Pindamonhangaba, em São Paulo. Um dos nomes cruciais nessa narrativa é o do Brigadeiro Manuel Rodrigues Jordão, português que deu nome à cidade após adquirir terras na região.
A ocupação se intensificou com a figura de Matheus da Costa Pinto, também português, que em 1874 adquiriu terras para iniciar uma fazenda de gado. A construção da Estrada de Ferro Campos do Jordão, inaugurada em 1914 e liderada pelo português Sebastião de Oliveira Damas, foi um marco. Ele trouxe trabalhadores de Castelo de Paiva, em Portugal, impulsionando o desenvolvimento e a fixação de famílias portuguesas na região.
O Ciclo Sanatorial e a Influência Europeia na Arquitetura e Gastronomia
Nas décadas de 1940 a 1960, Campos do Jordão atraiu pacientes com tuberculose, em uma época sem medicamentos eficazes. O clima frio, o ar puro da serra e o repouso eram considerados aliados no tratamento. Essa vocação sanatorial impulsionou o turismo, com familiares e amigos dos pacientes visitando e se encantando com as paisagens locais.
Com o desenvolvimento do turismo, a arquitetura da cidade passou a refletir a inspiração em países de clima semelhante, como a Suíça. A Professora Agnes Yuri Uehara Bezerra destaca que o estilo pode ser considerado “eclético”, com exemplos como chalés em estilo suíço e adaptações da arquitetura Tudor inglesa. O Palácio Boa Vista, projetado por um arquiteto polonês, e o portal da cidade com a técnica do falso enxaimel, de origem normanda, exemplificam essa mistura.
A gastronomia também foi enriquecida por essa diversidade. Famílias portuguesas preservaram tradições com pratos como bacalhau, alheira e borrego. Além disso, a chegada de alemães após 1939, muitos vindos do navio Windhuk e que inicialmente foram retidos em campos de concentração, trouxe contribuições significativas, como receitas de apfelstrudel e o fortalecimento da infraestrutura turística e da culinária de inverno.
A Força Nordestina e a Expansão Urbana de Campos do Jordão
A partir da década de 1960, com o crescimento urbano e a expansão do setor de construção civil, operários nordestinos começaram a chegar a Campos do Jordão. Muitos vieram da Bahia e desempenharam um papel fundamental na construção de hotéis, sanatários e casas de temporada, ajudando a moldar a infraestrutura da cidade.
Cicero Roberto Rodrigues da Silva, presidente da Associação dos Nordestinos e dono de uma rádio local, é um exemplo dessa migração. Ele chegou de Ingá, na Paraíba, no início dos anos 1990 para trabalhar como zelador, seguindo os passos do pai. Sua família se estabeleceu na cidade, e ele hoje tem dois filhos jordanenses, demonstrando a integração e a contribuição da comunidade nordestina para a cidade.
A Proximidade Geográfica e a Migração Mineira
Apesar da forte presença de comunidades nordestinas e portuguesas, a comunidade mineira é a maior em Campos do Jordão. Essa migração é explicada pela geografia e pela ligação cultural. A cidade faz divisa com três municípios mineiros: Brazópolis, Piranguçu e Wenceslau Braz. Essa proximidade facilitou a circulação natural de pessoas, produtos e trabalhadores do Sul de Minas, consolidando a presença mineira na região.
Enquanto os nordestinos chegaram em um período de aquecimento da construção civil, após o ciclo sanatorial, a migração mineira se deu de forma mais orgânica, impulsionada pela localização geográfica e pela afinidade cultural. Essa combinação de fatores resultou na rica tapeçaria humana que define Campos do Jordão hoje.
