A Guerra no Irã Abala o “Paraíso” de Dubai: Influenciadores Fogem e Turismo Despenca com Ataques

Dubai, outrora promovida como um porto seguro e refúgio de luxo isento de impostos, agora sente os efeitos da guerra no Irã, com o turismo em queda e influencers sendo forçados a deixar o país.

A narrativa de um “sonho de Dubai”, onde estrangeiros ostentavam um estilo de vida glamoroso, parece estar desmoronando, segundo manchetes recentes. O jornal “Daily Mail” destacou um “grande êxodo” de influenciadores, cujas vidas de fantasia estariam sendo forçadas a um fim abrupto.

Parte dessa reviravolta envolve a prisão de influenciadores e outras pessoas por divulgarem imagens dos danos causados por ataques iranianos. A organização Detained in Dubai estima que mais de 100 indivíduos, incluindo europeus, foram detidos pelas autoridades dos Emirados Árabes sob leis de crimes cibernéticos ou de segurança nacional, com penas que podem incluir multas elevadas ou anos de prisão.

Conforme o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, o Irã lançou mais de 2.200 drones e 500 mísseis balísticos contra o país. Relatos indicam que alguns ataques teriam atingido o aeroporto de Dubai, além de edifícios residenciais e hotéis, embora as autoridades tenham tentado manter uma imagem de normalidade e segurança, com líderes visitando shoppings e empresas sendo orientadas a operar normalmente.

Impacto Econômico e Fuga de Expatriados

Dubai, o segundo maior emirado dos Emirados Árabes Unidos, sofreu danos econômicos significativos. Diferente de Abu Dhabi, que detém a maior parte do petróleo, a economia de Dubai depende fortemente de setores não petrolíferos, como turismo, serviços financeiros, tecnologia, imobiliário e logística. A cidade, com cerca de 3,8 milhões de habitantes, sendo apenas 10% nativos, tem seu crescimento impulsionado por imigrantes, investidores e turistas.

Uma análise de 2021 do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, com sede em Washington, aponta que a população expatriada é central para o desenvolvimento econômico do país. Portanto, contrações populacionais causadas pela saída de expatriados tendem a ter um impacto econômico desproporcional.

Embora não haja números oficiais sobre quantos residentes estrangeiros deixaram Dubai, relatos sugerem que dezenas de milhares fugiram desde o fim de fevereiro. O turismo também registrou uma queda acentuada, com empresas do setor indicando perdas de até 80% no número de visitantes. Em março, as taxas de ocupação hoteleira despencaram, segundo a publicação Arabian Gulf Business Insight.

Mercados em Queda e Resposta do Governo

O conflito também afetou outros setores. O índice de referência da bolsa de Dubai perdeu 16% de seu valor durante a guerra. Gestores do setor financeiro orientaram funcionários a trabalhar de casa, e alguns até evacuaram pessoal. Os preços dos imóveis caíram após atingirem níveis recordes, com compradores desistindo de aquisições planejadas.

Em resposta, as autoridades dos Emirados Árabes Unidos anunciaram um pacote de medidas no valor de cerca de US$ 272 milhões (R$ 1,39 bilhão). O pacote inclui a extensão de três meses para o pagamento de taxas governamentais, como impostos sobre vendas de hotéis e turismo, além de mais tempo para declarações aduaneiras. Planos para estimular o turismo pós-conflito também estão sendo financiados.

O Financial Times informou em meados de março que o governo também pretende flexibilizar regras de status fiscal e residência para estrangeiros, buscando convencer aqueles que partiram a retornar. Robert Mogielnicki, pesquisador do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, destacou que Dubai foi um dos primeiros governos regionais a lançar um programa de apoio econômico abrangente, reconhecendo a necessidade de uma resposta rápida devido à forte ofensiva e à importância da economia não petrolífera do emirado.

Otimismo e Desafios para a Recuperação

Apesar dos desafios, há otimismo quanto à resiliência de Dubai. Karen Young, pesquisadora sênior da Universidade Columbia, acredita que o emirado pode se recuperar, e Martin Henkelmann, chefe do Conselho Conjunto Germano-Emiradense para Indústria e Comércio, concorda, apontando para a recuperação pós-pandemia de COVID-19 como um indicativo. No entanto, a perspectiva positiva depende de uma resolução rápida do conflito.

Um indicador econômico inicial, o índice de gerentes de compras (PMI) de março para os Emirados Árabes Unidos, mostrou uma queda de 54,6 em fevereiro para 53,2 em março. Apesar da queda, um PMI acima de 50 ainda representa crescimento. David Owen, economista sênior da S&P Global, observou que o setor privado não petrolífero sofreu um revés, mas as carteiras de pedidos e a produção permaneceram resilientes para muitas empresas.

Reputação em Jogo

Além dos danos tangíveis, Dubai enfrenta perdas menos palpáveis, mas potencialmente mais difíceis de corrigir, relacionadas à sua reputação. Imagens de hotéis de luxo em chamas e manchetes sobre prisões de influenciadores em um estado autoritário abalam a marca de “ilha de estabilidade” que o país cultivou por anos, como apontou o Financial Times. A incerteza paira sobre se indivíduos de alto patrimônio e amantes do luxo retornarão em números semelhantes, especialmente se outras opções estiverem disponíveis.

“Expatriados são um público-chave para Dubai”, ressaltou Mogielnicki. Ele prevê que haverá esforços concentrados e incentivos fortes para reter, trazer de volta e continuar atraindo expatriados, mantendo o discurso comercial que sempre caracterizou Dubai, mesmo que não seja fácil.

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