Paraísos Caribenhos Fechados para Turistas: Moradores Perdem Acesso a Praias em Barbuda, Jamaica e Granada
Moradores de ilhas caribenhas relatam restrição de acesso a praias paradisíacas, antes de uso comum, agora dominadas por resorts de luxo para turistas.
Em Barbuda, a luta de Miranda Beazer para recuperar o acesso à sua terra, onde funcionava o bar Pink Sands Beach, ilustra um problema crescente no Caribe. O local, frequentado por mais de 20 anos pela comunidade, foi destruído após o furacão Irma e, segundo Beazer, demolido por incorporadoras estrangeiras, apesar de ela possuir um contrato de arrendamento.
A disputa em Barbuda expõe um sistema de posse de terra coletiva, onde moradores detêm direitos de arrendamento, mas não propriedade privada. A Lei de Terras de Barbuda, de 2007, buscava proteger essa estrutura, mas novas legislações, como a Lei Paradise Found, permitiram o desenvolvimento de resorts como o The Beach Club Barbuda, que contorna as proteções existentes.
Conforme informações divulgadas por ativistas e pela Global Legal Action Network (GLAN), o empreendimento The Beach Club, com investidores como Robert De Niro, ocupa 400 acres e inclui hotéis de luxo e residências exclusivas. Moradores afirmam que o acesso à praia Princess Diana, agora parte do complexo, foi restringido após a construção de uma estrada de desvio, e que os preços dos terrenos começam em US$ 7 milhões.
Barbuda: A Luta pela Terra Coletiva Contra o Turismo de Elite
A terra de Miranda Beazer representa a última faixa do litoral sul de Barbuda acessível aos moradores locais. A ilha, onde a terra é coletivamente comunitária desde o fim da escravidão em 1834, enfrenta a pressão de incorporadoras milionárias que visam transformar essas áreas em refúgios exclusivos para turistas. Beazer, que detinha o arrendamento de 30 acres, hoje tem acesso a apenas oito, alegando ocupação ilegal por empresas como Murbee Resorts e Peace Love and Happiness (PLH).
A Murbee afirma ser detentora legal de um contrato de arrendamento e que não realizou construções sem autoridade legal. Já a PLH nega ocupar a área e diz ter seguido rigorosamente os acordos. No entanto, Beazer e outros ativistas permanecem determinados a lutar pelo acesso, demonstrando a tensão entre o desenvolvimento turístico e os direitos da comunidade local.
Jamaica e Granada: Leis Fundiárias e Restrições de Acesso às Praias
A Jamaica também enfrenta desafios semelhantes, onde a legislação fundiária atual é criticada por discriminar os jamaicanos, segundo Devon Taylor, presidente do Jamaica Beach Birthright Environmental Movement (Jabbem). Ele afirma que a lei deixa claro que não há direitos sobre a faixa costeira e áreas adjacentes para os cidadãos.
Uma nova lei proposta pelo governo jamaicano visa ampliar o acesso dos moradores, mas Taylor argumenta que ela impõe mais restrições, incentivando hotéis a vender passes de acesso. Atualmente, menos de 1% do litoral jamaicano é livremente acessível à população local, e a Jabbem está envolvida em cinco disputas judiciais contra o governo e incorporadoras privadas.
Em Granada, o grupo Grenada Land Actors, liderado por Kriss Davies, expressa preocupação com o aumento da demanda turística e a construção de grandes resorts, que poderiam comprometer o charme da ilha. O Caribe, como um todo, é a região mais dependente do turismo no mundo, com cerca de metade dos visitantes sendo americanos, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
O Impacto do Turismo: Riqueza Desviada e Culturas Ameaçadas
O crescimento do setor turístico é visto como um caminho para o desenvolvimento econômico em muitos governos caribenhos. No entanto, ativistas como Devon Taylor alertam que o turismo não é neutro, carregando um peso econômico e moral significativo. Esses empreendimentos frequentemente expulsam moradores de terras ancestrais, restringem o acesso público às praias e desviam riqueza das comunidades locais, cujas culturas sustentam a própria experiência turística.
Enquanto a busca por destinos paradisíacos continua a crescer, defensores da terra no Caribe temem que o turismo, em vez de trazer oportunidades, possa alterar de forma irreversível os lugares que chamam de lar, transformando ilhas vibrantes em espaços exclusivos e inacessíveis para seus próprios habitantes.
